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Notas — A morte lenta do sagrado cordeiro


O recorte do cartão-postal sobre a mesa opera como um mise en abyme da pintura de Francisco de Zurbarán. A temática do cordeiro de sacrifício foi catalogada sete vezes ao longo de sua carreira, sendo esta a terceira versão (1635–1640), atualmente localizada no Museu do Prado, em Madrid. Independentemente das diferenças entre os trabalhos e do debate iconográfico que ele sugere — como a variação da presença ou não de chifres, a inserção da auréola e outros escritos —, atenhamo-nos ao fato de tratar-se de uma obra do período barroco, carregada da egrégora religiosa do período. Temos o Agnus Dei, o Cordeiro de Deus, prestes a ser abatido e a expiar os pecados da humanidade. Paralelá-lo, portanto, com um bibelô de porcelana ilustra a dessacralização que vivemos em todas as áreas, em cada rito que deixou de fazer parte da esfera divinal.


Todos os meus trabalhos partem do manual, tanto em sua própria existência quanto em seu propósito. O labor da atividade de pintura resguarda o aspecto humano abafado, dia após dia, pela automatização, pela simplificação, pelo esquecimento e pelo desprezo de processos complexos de trabalho. Seremos “desencantados pelo mundo” à proporção que o diálogo com nossos próprios seres é silenciado pelo ruído secular. As pequenas estatuetas e bonecos são simulacros, carcaças de matéria construídas por nós; diferentes do humano, não carregam o caráter que nos foi dado pela natureza, mas tampouco manifestam apenas a farsa, pois representam ideias à sua própria maneira. Com mais ou menos interferência humana, eles ainda são resíduos simbólicos da nossa própria forma de ver o mundo e constituem o nosso entorno — é a forma como olhamos para eles que determina a sua qualidade.


Se deslocados para o campo da indiferença, tanto o cartão-postal quanto a estatueta de um carneirinho passam a produzir o mesmo impacto; aos poucos, seus significados são ofuscados e, por fim, esquecidos, uma vez que os objetos já se configuram como formas diluídas de comunicar sentido. Ao substituir aquilo que nos toca pelo que é alienável, nada em nosso entorno permanece vinculado a algo palpável de nossa própria essência.

 
 
 

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